CITIUS, ALTIUS, LONGIUS

(MAIS RÁPIDO, MAIS ALTO, MAIS DISTANTE)

A BIOMECÂNICA DOS SALTOS HORIZONTAIS

 

James G. Hay

Departamento de Ciências do Exercício - Universidade de Iowa

Publicado em Journal of Biomechanics., 26(S1):7-21, 1993

 

RESUMO

O objetivo desse estudo é rever o conhecimento atual referente aos saltos triplo e em distância. Muito se tem aprendido nas últimas duas décadas sobre as técnicas do salto em distância. Muitos mitos foram removidos, e muitas práticas de treinamento foram alteradas como resultado disso. No entanto, as técnicas empregadas durante a fase de impulsão têm recebido pouca atenção. É nessa área que, provavelmente, ocorrerão os avanços mais importantes na próxima década. Em contraste com o salto em distância, respostas satisfatórias ainda estão por serem obtidas mesmo nas questões mais fundamentais sobre as técnicas do salto triplo. O salto triplo é uma tarefa experimental com potencial para uso em estudos da locomoção humana, percepção e controle visuais, resistência de materiais biológicos e dos mecanismos de lesão dos tecidos moles.

 

INTRODUÇÃO

Há duas provas no atletismo onde o objetivo é saltar o máximo possível na direção horizontal. São os chamados saltos horizontais, o salto em distância e o salto triplo. O objetivo desse estudo é rever o conhecimento atual relacionado aos saltos triplo e em distância. Nesse processo, eu proponho descrever os avanços feitos nos anos recentes; identificar o que é agora conhecido e o que permanece desconhecido; e demonstrar que as questões discutidas são geralmente de um interesse muito amplo.

 

SALTO EM DISTÂNCIA

O salto em distância consiste de uma corrida de abordagem rápida, cuidadosamente medida; um impulso explosivo a partir de uma tábua de madeira de 20 cm de largura; um vôo e uma aterrissagem na caixa de areia. A distância com a qual o atleta é creditado é aquela mais curta entre a extremidade da tábua de impulsão mais próxima à caixa de areia estendida lateralmente, se necessário), e a marca mais próxima feita na areia pelo atleta.

Abordagem

O saltador em distância tem três tarefas básicas a cumprir durante a corrida de abordagem: a) desenvolver tanta velocidade horizontal quanto possa efetivamente utilizar durante a impulsão; b) ajustar a posição do corpo durante as últimas passadas, a fim de se posicionar para a impulsão; e c) colocar o pé de impulsão precisamente sobre a tábua. Por conveniência, esses fatores são normalmente referidos como os requisitos velocidade, posição e precisão de uma abordagem eficaz.

Velocidade. Sucesso no salto em distância depende, acima de tudo, da habilidade de desenvolver uma grande velocidade de corrida na aproximação para o salto. Correlações de velocidade horizontal de abordagem (ou, mais especificamente, velocidade horizontal do centro de gravidade do atleta no momento do contato com a tábua) e a distância do salto, têm consistentemente produzido coeficientes de 0,7 a 0,9 ou mais - Figura 1 (HAY et al, 1986; HAY and NOHARA, 1990; NIXDORF and BRÜGGEMAN, 1990).

Por muitos anos, se pensou que o saltador de distância deveria atingir a maior velocidade horizontal possível a 4 - 5 passadas da tábua, e então se aproximar dela sem perder velocidade, ao mesmo tempo em que se prepara para a impulsão. Nós sabemos hoje que saltadores de elite não fazem isso, e provavelmente nunca fizeram. O resumo estatístico mostrado na tabela I é baseado nos melhores saltos dos finalistas de uma série de grandes competições. Os dados mostram que em mais da metade dos casos o valor mais alto de velocidade horizontal foi observado na impulsão da penúltima passada, e em mais da metade dos saltos remanescentes na impulsão da antepenúltima passada. Eles também mostram que houve pouca diferenças distâncias médias dos saltos realizados pelos indivíduos nesses dois grupos - uma pequena diferença favorecendo o grupo da penúltima passada no caso dos homens, e resultados virtualmente idênticos no caso das mulheres.

Posição. As técnicas usadas pelos atletas na transição da corrida para o salto foram objeto de um estudo recente (HAY and NOHARA, 1990). A Figura 2 mostra a altura média do centro de gravidade versus distância horizontal do centro de gravidade até a tábua de impulsão. Os dados mostrados representam as últimas cinco fases de apoio de 20 saltadores de elite nacional. A Figura 3 mostra os valores médios correspondentes para a distância de impulsão, vôo e aterrissagem para cada uma das últimas 4 passadas da abordagem. Esses dados mostram que:

 

a) Os valores correspondentes para a altura do centro de gravidade durante as fases de apoio da quarta, antepenúltima e penúltima passadas são virtualmente idênticos. Os valores das distâncias de aterrissagem, impulsão e vôo também o são, nessas passadas. Esses resultados sugerem que saltadores habilidosos mantêm seu padrão normal de corrida pelo menos até a impulsão da penúltima passada.

b) A primeira indicação de que estão sendo feitos ajustes na preparação para a impulsão aparece no início da última passada. Nesse momento, há um grande decréscimo da altura do centro de gravidade e um pequeno aumento na distância de apoio (touchdown). Os indivíduos estão mais baixos e aterrissam com o pé de apoio mais a frente do que nas passadas anteriores.

c) Finalmente, há uma pronunciada diminuição na distância de vôo e um aumento adicional na distância de aterrissagem, durante a última passada.

Precisão. Por muitos anos, manuais de treinamento enfatizam a importância de manter um padrão de corrida consistente em direção à tábua, e advertem os leitores que não se deve, sob qualquer circunstância, ajustar esse padrão para assegurar que o pé de impulsão atinja a tábua. Nós sabemos hoje que essas orientações são falhas.

Estudos de saltadores escolares, universitários e de elite - inspirados no trabalho de LEE e seus colaboradores da Universidade de Edimburgo, 1982 - têm mostrado que atletas de todos os níveis fazem exatamente o oposto do que sugerem essas recomendações.

Considere a situação mostrada na Figura 4 (a). Ela mostra a posição do pé, e a correspondente distância até a tábua, durante uma das fases de apoio na primeira de seis tentativas feitas por um saltador de distância. A Figura 4 (b) mostra as posições do mesmo pé, para a mesma fase de apoio, para todas as seis tentativas; a distância média do pé até a tábua para as seis tentativas, e o desvio-padrão dessa média. O desvio-padrão é, logicamente, uma medida de consistência do atleta de tentativa para tentativa.

 

A Figura 5(a) mostra o desvio-padrão das distâncias do pé à tábua plotados contra a fase de apoio para seis tentativas de uma saltadora de elite. Esse resultado típico mostra que o desvio-padrão aumenta gradualmente no início da abordagem (fase de apoio -20) até a 4ª passada antes da tábua (fase de apoio -4). Desse ponto em diante, o desvio-padrão diminui agudamente até o final da abordagem (fase de apoio 0).

Esses dados sugerem que a atleta usou o padrão de passadas desenvolvido durante os treinamentos, e que pequenos erros na passada gradualmente se acumularam com a progressão da corrida - Figura 5(b). Em pelo menos uma (e provavelmente a maioria) de suas tentativas, a atleta percebeu que não estava no local correto com relação à tábua. Ela começou então a usar sua percepção visual como base para alterar o comprimento de suas últimas passadas, e com isso atingir a tábua com precisão. Resumindo, a atleta usou o que é conhecido como uma estratégia programada para a primeira parte de sua corrida, e então mudou para uma estratégia de controle visual para levá-la à tábua de impulsão.

Essas estratégias são usadas também por saltadores de triplo e vara, e provavelmente também por saltadores de altura, barreiristas, lançadores de dardo - todos esses precisam de uma abordagem rápida e precisa até o ponto de liberação ou impulsão. São também usados quase certamente em outros esportes - na abordagem do salto sobre o cavalo na ginástica, na corrida para a base no baseball e softball, entre outros.

Estratégias de controle visual são também usadas em alguns lugares menos óbvios. Dick Francis (1992), um antigo jóquei campeão de obstáculos, e atualmente um competente autor de histórias de mistério, escreveu em sua autobiografia sobre o processo de ajustar as últimas passadas para os obstáculos - um processo conhecido no meio como "colocar o cavalo":

"Quando eu tenho a oportunidade de ensinar um cavalo desde o início, eu gosto de conduzi-lo gentilmente... até que ele tenha aprendido o comprimento de sua própria passada e a distância que ele precisa estar do obstáculo quando faz sua impulsão... Alguns cavalos se posicionam naturalmente, alguns demoram algumas semanas para fazê-lo, e outros nunca aprendem. Esses últimos deveriam ser mandados embora para casa...". E Steinkraus (1991), campeão olímpico em adestramento, escreve sucintamente sobre o mesmo assunto:

"... o montador deve ser capaz de tocar a passada como um acordeão, estendendo e comprimindo com fluência e ao seu próprio desejo, sem atrapalhar nada mais."

Curiosamente, o local onde o uso da estratégia de controle visual é mais conhecido dos biomecânicos é justamente onde ela é uma obrigação, e não um componente do movimento. Na análise da locomoção, o uso da estratégia de controle visual por um indivíduo para assegurar que seu pé seja colocado no centro da plataforma de força é conhecido como "targeting" (mirar e acertar o alvo), e, por isso geralmente forçar o indivíduo a um padrão de locomoção atípico, tende a subverter o objetivo da análise.

Resumo. Um saltador de distância tem três tarefas a realizar durante a corrida de abordagem. A primeira tarefa (velocidade) exige a atenção do atleta pelo menos até a antepenúltima ou penúltima passada - Figura 6. A segunda tarefa (posição) se torna uma preocupação dominante durante as duas últimas passadas. E, finalmente, a terceira tarefa (precisão) exige a atenção do saltador ao longo de toda a abordagem, e especialmente durante as cinco últimas passadas, onde o atleta muda de uma estratégia programada para uma estratégia de controle visual. Para a maioria das cinco últimas passadas, então, o atleta tem duas tarefas a desempenhar. Em alguns casos, essas tarefas são complementares - como, por exemplo, quando o atleta procura aumentar a velocidade e também tenta aumentar a amplitude de suas últimas passadas a fim de atingir a tábua. Em outros casos, são contraditórios, como quando o atleta tenta diminuir a distância de vôo da última passada para obter a posição ótima de impulsão e também tenta aumentar a amplitude da última passada para atingir a tábua. Quão habilidosamente os atletas satisfazem essas várias demandas, e especialmente como eles reconciliam (ou tentam reconciliar) essas demandas conflitantes, ainda está por ser determinado.

 

 

Momento Angular Durante a Impulsão

Tem geralmente sido assumido que os atletas chegam à tábua com um momento angular zero ou próximo de zero, e que o momento angular possuído na saída da tábua é resultado dos impulsos angulares exercidos durante a impulsão. HINRICHS et al (1989) demonstraram, no entanto, que não é esse o caso. Eles determinaram que metade do momento angular que um atleta possui ao redor de seu eixo centroidal transverso no momento da saída da tábua é desenvolvido durante a abordagem (Tabela II).

 

Durante a impulsão, o atleta está sujeito a forças de reação do solo horizontais e verticais, que tendem a acelerá-lo angularmente ao redor do eixo transversal que passa por seu centro de gravidade (Figura 7(a)). Para a maior parte das impulsões, a força horizontal age no sentido de acelerar angularmente para frente. A força vertical inicialmente atua acelerando angularmente para trás, e uma vez que o centro de gravidade tenha passado por cima do centro de pressão, em uma direção para frente. O momento resultante atuando sobre o atleta é, inicialmente, dirigido para trás (como resultado da influência da força vertical agindo à frente do centro de gravidade); e em seguida para frente (quando ambas as forças, horizontal e vertical, atuam na mesma direção angular); e finalmente, por um breve período, para trás novamente (como resultado da influência dominante das forças horizontais) - Figura 7(b).

 

O efeito somado do momento angular gerado durante a abordagem e as alterações que têm lugar durante a impulsão geralmente resultam no abandono da tábua com pequenas quantidades de momento angular ao redor dos eixos longitudinal e frontal, e uma quantidade relativamente grande de momento angular ao redor do eixo transversal. A Tabela III mostra, por exemplo, os valores de momento angular para um salto de 8,58m do recordista mundial Mike Powell.

A grande quantidade de momento angular ao redor do eixo transversal é consistentemente uma fonte de dificuldade. A menos que o saltador tome os passos apropriados para controlá-lo durante o vôo, esse momento angular fará com que a queda se dê com os pés sob o corpo, ao invés de bem estendidos à frente, e consequentemente a uma perda de distância no salto.

Controle do Momento Angular Durante o Vôo

A técnica mais elementar usada durante a fase de vôo do salto em distância é aquela na qual o saltador traz seus joelhos para cima à frente do corpo e se mantém em uma posição grupada. No entanto, a menos que o atleta tenha abandonado a tábua com muito pouco momento angular para frente, o pequeno momento de inércia ao redor do eixo transversal virtualmente garante uma posição de aterrissagem ruim.

Atletas habilidosos têm alguns meios para vencer esse problema. Alguns elevam seus braços e estendem suas pernas, maximizando o momento de inércia do corpo ao redor do eixo transversal , minimizando sua velocidade de rotação para a frente, e aumentando a probabilidade de obter uma boa posição de aterrissagem. Essa técnica é conhecida por ARCO, ou ESTENDIDA ("Hang").

Alguns atletas usam uma ação modificada de corrida no ar. Essa técnica de passada no ar (ou "Hitchkick") envolve o uso de movimentos angulares de braços e pernas para gerar uma reação contrária do tronco, e então controlar a postura do atleta no ar (Figura 8). Nenhuma discussão sobre as técnicas de vôo usadas por saltadores de distância seria completa sem alguma referência à mais espetacular delas, a técnica do Mortal para Frente ("Somersault") - Figura 9. Nessa técnica, o atleta se impulsiona com uma quantidade relativamente grande de momento angular para frente - acima de 40 Nms, de acordo com uma estimativa de RAMEY (1976); assume uma posição grupada tão logo abandone a tábua; e então executa um salto mortal para frente antes de estender o corpo para a aterrissagem. O uso dessa técnica implica na utilização do momento angular, ao invés da tentativa de se livrar dele. Infelizmente essa técnica tornou-se obsoleta em função de modificações nas regras, exatamente quando as distâncias atingidas estavam se tornando competitivas com aquelas técnicas mais tradicionais.

 

Aterrissagem

Tem-se acreditado que a posição ótima de queda é aquela como tronco quase ereto, as pernas abaixo da horizontal, e os braços atrás do corpo (DYSON, 1962; SCHMOLINSKY, 1983). Desenvolvimentos recentes sugerem outra coisa. Os resultados de uma simulação por computador conduzida por MENDOZA (1989) - e nossas próprias análises de saltadores de elite - têm sugerido que a posição ótima de aterrissagem é aquela com o quadril completamente flexionado, e o tronco bem para frente - Figura 10.

Resumo

Muito se tem aprendido nas últimas duas décadas sobre a biomecânica do salto em distância. Muitos mitos foram desfeitos, e muitas práticas de treinamento se modificaram como resultado do que se aprendeu. Existe, no entanto, muita coisa que permanece desconhecida. Um elemento importante pode ter sido iluminado nessa discussão sobre os avanços no conhecimento sobre as técnicas do salto em distância. Fora as referências a alterações no momento angular, pouco tem sido dito a respeito da biomecânica da fase de impulsão. Há uma boa razão para isso. Embora a impulsão seja obviamente um elemento central no salto em distância, as técnicas empregadas durante ela têm merecido pouca atenção dos pesquisadores. É nessa área que os avanços mais importantes deverão ocorrer na próxima década.

SALTO TRIPLO

O salto triplo consiste de uma corrida de abordagem, seguida por a) um HOP, isto é, uma impulsão a partir de um pé e queda nesse mesmo pé; b) um STEP, ou seja, uma impulsão a partir de um pé e queda no pé contrário; e finalmente c) um JUMP, uma impulsão a partir de um pé e queda sobre ambos os pés, na areia.

Distribuição do Esforço

A fim de preservar algum momento para frente nas fases seguintes, e para evitar cargas excessivas sobre o corpo durante a aterrissagem, as duas primeiras fases são invariavelmente executadas com um esforço inferior ao máximo. A fase final, por outro lado, é feita como um salto em distância, com esforço máximo.

A maneira como um triplista distribui seu esforço é geralmente conhecida em termos da distância obtida em cada fase. Então, uma saltadora de elite pode ter um HOP de 5,00m (medido de ponta a ponta do pé); um STEP de 4,40m (novamente medido de ponta a ponta do pé), e um JUMP de 4,60m (medido da ponta do pé à marca mais próxima deixada na caixa de areia) - Figura 11. Nesse caso, o HOP contribui com 36% da distância total, o STEP com 31%, e o JUMP com 33%.

Distâncias e proporções como essas têm sido publicadas na literatura. A Tabela 4 contém uma relação das distâncias em cada fase e proporções para os saltos que foram recorde do mundo desde 1913. Algumas coisas são aparentes nessa tabulação:

a) As distâncias do HOP chegaram a 6,50m (Oda, Fyedoseyev, Saneyev). O HOP mais longo já mensurado chegou a 7,02m. E isso, deve ser enfatizado, é para uma aterrissagem em uma posição quase ereta, sobre um pé. Se o atleta que executou esse salto aterrissasse como em um salto em distância - a uma altura muito menor e com ambos os pés estendidos à frente - esse mesmo esforço produziria um salto de 8,29m (Figura 12). Essa é uma distância que teria proporcionado a medalha de bronze no salto em distância nos últimos Jogos Olímpicos! (de 1988).

b) As distância do STEP são invariavelmente as menores das três fases. Isso é devido ao efeito combinado das perdas de velocidade horizontal que acompanham cada aterrissagem e à pequena altura do centro de gravidade no final do JUMP, que serve para prolongar o tempo de vôo dessa fase e aumentar sua distância.

c) As distâncias do JUMP chegaram a 6,69m - uma distância que muitos saltadores de nível escolar ou de clube gostariam de obter no salto em distância.

d) Finalmente, e mais importante, deve ficar claro que tabelas como essa são organizadas de tal forma, e contêm tantos dados, que é virtualmente impossível ter alguma conclusão, a partir delas, sobre a questão crítica de qual seria a distribuição ótima do esforço no salto triplo.

Tabela 4. Distâncias e proporções das fases do salto triplo em recordes mundiais oficiais

Atleta

Ano

Hop (m)

Step (m)

Jump (m)

Razão (%)

Distância Total (m)

Aherne (USA)

1911

6,09

3,34

5,83

39 - 22 - 37

15,52

Winter (AUS)

1924

6,09

3,34

5,83

39 - 22 - 37

15,53

Oda (JAP)

1931

6,50

3,50

5,56

41 - 22 - 36

15,58

Nambu (JAP)

1932

6,40

4,42

4,93

41 - 28 - 31

15,72

Tajima (JAP)

1936

6,20

3,99

5,81

39 - 25 - 36

16,00

Da Silva (BRA)

1950

5,51

4,82

5,64

34 - 30 - 35

16,00

Da Silva (BRA)

1952

6,20

4,59

5,42

38 - 28 - 33

16,22

Sherbakov (URSS)

1953

6,01

4,96

5,24

37 - 30 - 32

16,23

Da Silva (BRA)

1955

6,27

4,98

5,31

38 - 30 - 32

16,56

Ryakhovskiy (URSS)

1958

6,46

4,96

5,15

39 - 30 - 31

16,59

Fyodoseyev (URSS)

1959

6,50

4,82

5,38

39 - 29 - 32

16,70

Schmidt (POL)

1960

6,00

5,01

6,01

35 - 29 - 35

17,03

Saneyev (URSS)

1968

6,30

5,05

6,04

36 - 29 - 35

17,39

Saneyev (URSS)

1972

6,50

4,93

6,01

37 - 28 - 34

17,44

Oliveira (BRA)

1975

6,08

5,37

6,43

34 - 30 - 36

17,89

Banks (USA)

1985

6,32

4,96

6,69

35 - 28 - 37

17,97

 

Foi recentemente proposto (HAY, 1990) que tabulações desse tipo sejam substituídas por um simples gráfico de proporções das fases, no qual a porcentagem do HOP é plotada contra a porcentagem do JUMP, e a porcentagem do STEP é indicada por linhas diagonais, como é mostrado na figura 13.

Apresentado dessa forma, algumas tendências básicas se tornam evidentes nos dados dos recordes mundiais da Tabela IV. Pode ser visto, por exemplo, que:

a) Os primeiros recordes foram estabelecidos com distâncias de HOP e JUMP relativamente grandes (37 a 39 porcento), e distâncias de STEP muito curtas (cerca de 22%). O STEP serviu então como uma fase de transição, ao invés de um colaborador importante para a amplitude total do salto - como ainda acontece com saltadores iniciantes por todo o mundo.

b) Os próximos 3 recordes mundiais, estabelecidos pelos japoneses Oda, Nambu e Tajima, foram feitos com grandes distâncias do HOP (39 a 41%) e com considerável variação nas distâncias do STEP e do JUMP.

c) Os demais recordes mundiais foram todos estabelecidos com distâncias do STEP variando entre 28 e 30%, com uma variação parecida com um pêndulo, inicialmente para distâncias maiores do HOP e menores do JUMP (Da Silva, 1950 até Ryakhovskiy), e posteriormente distâncias menores do HOP e maiores do JUMP (Fyedoseyev até Banks). Au que parece, os recordes mundiais das últimas três décadas têm envolvido uma busca pela melhor combinação das distâncias do HOP e do JUMP, com uma distância do STEP de aproximadamente 30%.

A facilidade com que as proporções podem ser comparadas torna esses gráficos muito úteis, e certamente muito mais fáceis de lidar que longas tabulações de dados. Todavia, uma vez que eles não incluem a variável dependente - distância total do salto - eles não permitem nem mesmo uma estimativa grosseira da proporção ótima para um dado atleta ou para um grupo de atletas.

Nesse momento, é útil considerar que tipo de relação existe entre uma determinada fase e o salto triplo. Considere, por exemplo, a relação entre a porcentagem do HOP e a distância total do salto. Experiência prática sugere que se o HOP for muito curto, a distância total é prejudicada, e se for muito longo, a distância total também é diminuída. Podemos assumir, então, que o HOP em algum ponto entre esses dois extremos propiciará a maior distância no salto triplo. Ou, para resumir, que a relação entre essas duas variáveis tem uma forma de U-invertido. O mesmo argumento leva à mesma conclusão com respeito ao valor percentual do JUMP e a distância total do salto triplo. Quando essas duas relações são combinadas, uma figura tridimensional com a forma de uma montanha com pico suavemente arredondado, ou uma outra com o pico agudo, é obtida. A primeira, se a distância do triplo não for sensível a pequenos desvios das porcentagens ótimas do HOP e do STEP, e a última se ele for sensível a tais variações.

Nós temos utilizado essas idéias gerais para obter uma indicação do que deve ser a distribuição ótima do esforço para um determinado saltador. A Figura 14 mostra um gráfico das porcentagens do HOP e do JUMP versus a distância real baseado em 19 tentativas de um saltador de elite. Nesse caso, o gráfico tridimensional indica que seus melhores resultados foram obtidos com um HOP relativamente curto, e um JUMP relativamente longo. Dentro dos limites dos dados disponíveis, sua proporção ótima parece ser cerca de 36% - 31% - 33%. A natureza assimétrica (ou incompleta) da "montanha" mostrada indica que o atleta tem mais chance de se desviar dessa proporção assumida como ideal em uma direção do que em outra. Especificamente, ele tem mais probabilidade de usar um HOP que é muito longo do que um que é muito curto, e um JUMP que é muito curto do que um que é muito longo. Emprestando um termo do alpinismo, ele está trabalhando apenas em uma face da montanha, e não explora completamente o potencial das outras faces.

 

Velocidade de Abordagem

Estudos recentes mostram que velocidades de abordagem no salto triplo são consideravelmente menores do que no salto em distância. Por exemplo, o valor médio para a máxima velocidade horizontal nas últimas passadas da abordagem para os oito finalistas do salto triplo nos Jogos Olímpicos de 1988 foi 10,29 m/s. Os valores correspondentes para os oito finalistas do salto em distância foi 10,83 m/s.

Há pelo menos três razões possíveis que explicariam o motivo de saltadores de elite no salto triplo abordarem a tábua a velocidades mais baixas que saltadores de distância de elite:

a) Talvez, através de algum processo de seleção, atletas que escolhem se especializar no salto triplo são inerentemente mais lentos que saltadores de distância.

b) Talvez a necessidade de fazer três impulsões consecutivas no salto triplo exija que o atleta sacrifique mais velocidade horizontal para manter o controle, de que é necessário no salto em distância.

c) Finalmente, pode ser que a necessidade de manter as forças que atuam sobre o corpo dentro de limites toleráveis exija que menos velocidade horizontal seja usada no salto triplo (onde duas aterrissagens são feitas sobre uma superfície relativamente dura, e uma na areia) do que no salto em distância (onde a única aterrissagem ocorre na areia).

Uma forma de explorar a primeira dessas possibilidades poderia ser estudar os dados de velocidade para aqueles atletas que competem em ambas as provas. Se esses atletas obtiverem consistentemente velocidades mais baixas durante a competição no salto triplo do que no salto em distância, nós devemos concluir que essa diferença ocorre em função das diferentes demandas que as duas provas exercem sobre os atletas. Por outro lado, se eles tiverem aproximadamente as mesmas velocidades em ambas as provas, devemos concluir que triplistas em geral são inerentemente mais lentos que saltadores de distância..

Infelizmente, há pouquíssimos dados disponíveis porque são poucos os atletas que competem em ambas as provas, e, quando o fazem, é raramente sob as mesmas condições e com a mesma intensidade de propósito. Os dados mostrados na Tabela V são para os melhores saltos obtidos por cada atleta em cada prova em uma mesma competição. Com uma única exceção, eles mostram que a velocidade horizontal no final da corrida de abordagem foi menor no salto triplo. Esses dados então dão suporte à noção de que diferenças nas velocidades horizontais obtidas por saltadores de triplo e de distância devem-se a diferenças nas demandas de cada prova.

 

Equilíbrio

O termo equilíbrio (balance, em inglês) é um enigma. Ele é largamente utilizado por atletas, treinadores, médicos e mesmo biomecânicos, porém raramente é definido. Além disso, definições de dicionário geralmente fazem pouco sentido dentro do contexto da biomecânica. O Webster's New Collegiate Dictionary, por exemplo, oferece dez definições do substantivo "equilíbrio". Algumas delas definem a palavra emtermos dela mesma. Então, de acordo com o Webster's, equilíbrio "é a habilidade de manter o equilíbrio"! Algumas são contraditórias, ou pelo menos ambíguas. Então, equilíbrio é definido tanto como "estabilidade produzida por uma distribuição simétrica de peso de cada lado do eixo vertical" e "peso ou força em um lado em excesso com relação ao outro". Nenhuma das dez definições do Webster's parece ser precisa e útil no estudo científico do movimento humano.

Então, para os objetivos desse estudo, e talvez também como uma forma de iniciar o debate sobre esse assunto, eu gostaria de propor a seguinte definição para a palavra equilíbrio:

"Equilíbrio é um estado no qual o impulso angular exercido ao redor de cada um dos eixos principais do corpo humano é consistente com a mudança de momento angular requerida ao redor daquele eixo."

Apesar de algumas dificuldades óbvias, essa definição pode ser útil na compreensão dos problemas que um saltador de triplo tem na manutenção do equilíbrio. Considere, por exemplo, os problemas que um triplista tem na manutenção do equilíbrio ao redor do eixo ântero-posterior (ou frontal).

 

A impulsão no HOP e no STEP são feitas com a mesma perna, e as posições ótimas do corpo no momento da impulsão são, presumivelmente, similares. O momento angular do atleta ao redor de seu eixo frontal na impulsão do HOP deveria ser então zero. Durante a fase de apoio do HOP, o atleta deve evocar do solo forças verticais de reação de uma tal grandeza e linha de ação que o impulso angular resultante - combinado com um muito menor que é gerado pelas forças de reação laterais - será apenas o suficiente para ele cancelar o momento angular que possuía durante o início da fase de apoio. Além disso, uma vez que as forças envolvidas são muito grandes, pequenas modificações no comprimento dos braços do momento terão um efeito pronunciado sobre o impulso angular resultante. Uma situação similar existe com respeito ao STEP e ao JUMP, exceto que nesses casos as forças são ainda maiores.

Em resumo, o salto triplo requer que o atleta exerça um controle muito preciso da posição de seu corpo nos momentos em que se sujeita às grandes forças de reação do solo. Certamente não é surpresa se triplistas diminuem a velocidade de suas corridas de abordagem de maneira a controlar melhor seu equilíbrio nas fases seguintes.

Forças

Coletar dados de força durante uma competição de salto triplo é quase impossível. Como resultado, a pequena quantidade de dados sobre forças disponível tem sido obtida em condições experimentais.

A relação tempo - força vertical de reação do solo apresenta uma forma característica associada coma maioria das atividades de corrida e saltos. Ela consiste de uma fase de impacto inicial (na qual a força se eleva rapidamente até um valor pico, e então decresce rapidamente até um valor próximo de zero), seguido por uma fase de impulso (na qual a força se eleva gradualmente até um segundo valor máximo antes de declinar gradualmente até zero).

RAMEY e WILLIANS (1985) registraram forças de reação do solo exercidas sobre dois triplistas e duas triplistas de nível universitário que realizaram um total de nove saltos cada - três com a impulsão do HOP sobre uma plataforma de força, três com a impulsão do STEP sobre a plataforma, e três com a impulsão do JUMP a partir dela. A distância total dos saltos foi de cerca de 12 metros para os homens e 9 metros para as mulheres (RAMEY, comunicação pessoal, 1991). As forças de pico verticais foram maiores para a fase de apoio do STEP - isto é, para a fase de apoio que começa com a aterrissagem do HOP - e atingiu 12,6 vezes o peso corporal.

AMADIO (1985) registrou forças de reação do solo durante sessões de treinamento do recordista alemão, do recordista alemão juvenil, e de outros dois triplistas de alto nível. Cada um dos sujeitos realizou uma série de saltos máximos, nos quais as forças de reação do solo exercidas durante duas fases de apoio consecutivas foram registradas com plataformas de força estrategicamente colocadas. As forças verticais de reação pico foram novamente maiores para a fase de apoio do STEP, e atingiram valores entre 14 e 22,3 vezes o peso corporal! Para o saltador médio de elite, que pesa 774 N (WARDEN, 1988), 22,3 vezes o peso corporal é uma força de 17,3 kN (ou quase 2 toneladas!).

Essas forças são muito maiores que qualquer outra à qual um membro do corpo humano se expõe em qualquer atividade voluntária para as quais dados podem ser encontrados (Tabela VI). O próximo valor mais alto é 16,4 vezes o peso corporal reportado para a fase de impacto na impulsão para o salto em distância (FISCHER, 1975). AINDA ASSIM, AS FORÇAS REPORTADAS POR Amadio podem estar subestimando as forças máximas às quais as pernas se expõem, porque a maior distância de salto para a qual ele obteve os dados (15,33m) foi quase 3 metros menor que o melhor salto já registrado - um salto, com vento a favor acima do limite permitido, de 18,20m, realizado por Willie Banks na seletiva americana para os Jogos Olímpicos de 1988.

 

 

Lesões

Além de sua provável influência na moderação da velocidade de abordagem do atleta, e de interferir em seu equilíbrio, as forças de reação do solo obser4vadas em cada aterrissagem podem prejudicar o desempenho de uma outra maneira. Elas podem ser tão grandes que as pernas no resistem, flexionam-se, e o salto deve ser abortado. Em tais casos, as forças internas e momentos articulares associados com essa flexão podem ser suficientemente grandes para causar lesões.

AMADIO (1985) realizou a única tentativa conhecida de determinar as forças internas e momentos articulares atuando sobre a perna de apoio de saltadores de triplo. Ele usou plataformas de força e dados cinematográficos para computar as forças e momentos articulares resultantes no joelho e tornozelo e a força no tendão do calcâneo durante as três fases de apoio, e encontrou que: a) os valores máximos para a força resultante na articulação do tornozelo foi um pouco menor que a força vertical de reação do solo, mas variou de uma maneira similar de fase para fase, e b) tais forças na articulação do joelho chegaram a 19.4 kN (ou cerca de 24 vezes o peso corporal) para o HOP, e um pouco menos para as outras fases. Em vista desses achados, não é surpreendente que estudos epidemiológicos de lesões características de triplistas mostrem que tornozelo, joelho e coluna lombar são os locais mais freqüentemente acometidos.

Três causas potenciais de lesões provocadas pela corrida foram identificadas: a superfície sobre a qual o indivíduo corre, o calçado usado e o tipo de movimento (NIGG, 1986). Muitos estudos têm sido conduzidos nos últimos anos sobre os efeitos que esses fatores têm sobre as forças de reação do solo na corrida. Até agora, no entanto, nenhum dos envolvidos em tais trabalhos parece ter se aventurado longe o suficiente para examinar os efeitos correspondentes no cenário muito mais extremo do salto triplo.

 

CONCLUSÃO

Os saltos horizontais no atletismo são uma mistura curiosa. O salto em distância é uma habilidade natural, relativamente simples, que evoluiu, como a maioria das outras provas, das habilidades básicas de sobrevivência de nossos ancestrais. O salto triplo, por outro lado, é uma habilidade artificial, estranha, cujas origens são obscuras.

Além de suas origens, as duas provas diferem em uma maneira significante. O salto em distância é um componente em muitas outras habilidades complexas. Ele pode ser visto nas passadas que precedem a impulsão no salto sobre o cavalo na ginástica, e na cortada no voleibol, nos vários saltos horizontais no futebol e basquetebol e, é claro, no salto triplo. O salto triplo é uma prova em si própria.

Sob uma perspectiva biomecânica, no entanto, é o salto triplo que excita maior interesse. Alguns biomecânicos têm interesse no salto triplo em si mesmo. Eles estão interessados nas técnicas empregadas pelos triplistas, e como essas técnicas se relacionam com o sucesso na prova. O salto triplo é muito mais que um ponto focal para tal interesse. Ele é uma tarefa experimental que pode ser usada em estudos de locomoção humana, de percepção e controle visual, de mecânica muscular durante esforços explosivos, de controle da dinâmica postural, da força de materiais biológicos, e dos mecanismos de lesão dos tecidos moles. Seu potencial como uma tarefa experimental nessas e em outras áreas não deve passar despercebido.

{Inglês: Nelio Alfano Moura}