O ATLETISMO FEMININO NA AMÉRICA DO SUL

 (Estudo realizado em 1994)

Coordenadores:

Prof. Pedro Henrique Camargo de Toledo 1

Prof. Nélio Alfano Moura 2,3

Membros:

Prof. Adauto Domingues 1

Profª Joelma de Oliveira Souza 1

Prof. Katsuhiko Nakaya 1,2

Prof. Neilton Salvador Alfano Moura 1,2

Profª Tania Fernandes de Paula 2

Prof. Dr. Valdir Barbanti 3

1 Projeto Olímpico CEPEUSP-Xerox

2 ADC Eletropaulo

3 Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo

 

 

CONDIÇÕES SÓCIO-CULTURAIS DA ÁREA SULAMERICANA

Nas sociedades latino-americanas em geral, e na América do Sul em particular, observa-se uma herança de hábitos e costumes patriarcais, com reflexos negativos para a integração da mulher nos diferentes ramos de atividade humana. Evidentemente, todo o movimento de emancipação feminina observado no mundo nos últimos trinta anos também influenciou nossa região, e hoje temos um número cada vez maior de mulheres assumindo tarefas tradicionalmente vistas como "masculinas". Apesar disso, o forte preconceito que ainda se encontra arraigado no espírito da maioria da população, principalmente na parcela menos favorecida economica e socialmente, faz com que as mulheres ainda sejam preteridas em favor do homem, por razões outras que não competência, quando disputam vagas que envolvam autoridade e liderança. Ainda se espera que a mulher cumpra os papéis tradicionais de "comandante do lar".

Esse quadro, no entanto, parece estar dando sinais de mudança. Embora não de maneira predominante, é cada vez maior o número de mulheres que contribuem significativamente para o orçamento familiar, algumas das quais superando o próprio companheiro em seus ganhos. A aceitação dessa realidade como um fato normal, que não denigre a imagem de nenhuma das partes envolvidas na relação pode ter consequências positivas até mesmo para a mulher atleta, uma vez que o esporte reflete os valores encontrados na sociedade (BORMS et al, 1981). Tradicionalmente, como nos mostra a história social, os homens assumiram uma posição de superioridade que se manifestava também em seus privilégios para participar de atividades esportivas. Na Grécia Antiga, apenas em Esparta o esporte também era praticado por mulheres, e ainda assim com o objetivo de prepará-las para a maternidade (HOWELL, 1981).

Um outro aspecto a ser ressaltado é que ainda se valoriza na América do Sul um modelo estereotipado de feminilidade que exclui o envolvimento em atividades físicas vigorosas, por supostamente tornarem a mulher rude e carente de tal feminilidade (VILADRICH, 1992). Há uma grande falta de cultura geral mesmo entre indivíduos (de ambos os sexos) envolvidos com o esporte, resultando na ignorância a respeito de resultados de estudos científicos que mostram que a mulher é perfeitamente capaz de realizar exercícios físicos intensos sem problemas fisiológicos ou estruturais, na verdade se beneficiando dessa prática (VILLALÓN, 1992).

O fato já salientado de que os preconceitos e a desinformação é mais presente nas camadas mais humildes da população, e que esses fatores têm um impacto negativo na participação das mulheres dessas camadas sociais no esporte, é particularmente preocupante para o atletismo sulamericano. Na maioria dos países de nossa região, o atletismo é uma das alternativas de prática esportiva mais adequadas para a população carente, em função da pequena necessidade de equipamento, e consequentemente investimentos, para sua prática. No Brasil, por exemplo, a maioria absoluta dos atletas, mesmo daqueles que vieram a atingir o alto nível, tem suas origens nas bases da pirâmide social. Se essa é a nossa população alvo, fica claro que grandes serão as dificuldades para levar à mulher os benefícios da participação em programas de atletismo. Um outro grave problema social, muito presente nos países de terceiro mundo, é a gravidez prematura, que pode ser também apontado como um importante fator inibidor para a prática do atletismo feminino.

 

PROBLEMAS ESPECÍFICOS DA ÁREA SULAMERICANA

Nossa região é reconhecidamente a menos desenvolvida no mundo sob o ponto de vista atlético. Quando consideramos os feitos no passado recente, verificamos que nosso subdesenvolvimento é ainda mais marcante no que se refere ao sexo feminino. Os fatores que parecem contribuir para esse estado são listados abaixo. Consideramos que os mesmos, se minimizados, contribuirão para melhorar o nível atlético da região em ambos os sexos, embora talvez com efeitos mais evidentes entre as mulheres:

Falta de cultura esportiva. O atletismo é pouco divulgado pela mídia impressa e falada. Como consequência, não surgem novos ídolos, jovens não são atraídos para a sua prática, e os patrocinadores em potencial não se interessam por ele. Com relação ao atletismo feminino, esse problema é maximizado, pois as poucas mulheres de nossa região com resultados de expressão internacional têm seus feitos atléticos ainda menos divulgados que os homens com resultados de nível similar.

Falta de locais adequados para treinamento. São poucos os países sulamericanos com opções variadas para manter grupos em treinamento. Normalmente, faltam centros de treinamento, pistas de atletismo, ou mesmo técnicos especializados trabalhando nas pistas existentes. Há a necessidade urgente de construírmos núcleos com condições mínimas (apenas a reta, ou mini-pistas com duas ou três raias), preferencialmente em material sintético, paralelamente ao desenvolvimento de projetos que garantam a lotação de técnicos especializados nesses centros. Em nossa região, a Argentina tem iniciado um trabalho nessa direção (FORNERIS et al, 1993).

Falta de equipamento adequado. Paralelamente à falta de instalações, também não temos acesso aos equipamentos, em qualidade e quantidade necessários para o desenvolvimento de nossos atletas ao seu máximo potencial. Mesmo em locais onde se encontram bons treinadores, a falta de material impede o desenvolvimento de muitas provas.

Nível de capacitação profissional insuficiente. Os treinadores da região são mal formados. Muitas vezes são voluntários sem curso superior ou escola de treinadores. Mesmo aqueles com formação superior encontram dificuldade para se manterem atualizados, uma vez que cursos são relativamente escassos, e a literatura produzida na própria região é pouco numerosa. Nosso Centro Regional de Desenvolvimento tem atuado no sentido de minimizar essas deficiências, O que ainda se vê, no entanto, é o emprego de métodos de iniciação inadequados, que não fornecem aos jovens os instrumentos necessários para sua posterior especialização. Além disso, e apesar dessas deficiências, tem-se buscado precocemente resultados elevados por parte desses mesmos jovens, às custas de treinamento intenso sem a base necessária, o que resulta na destruição de nossos talentos. Essa má formação do treinador também faz com que o mesmo não compreenda as particularidades do treinamento feminino, principalmente em seus aspectos psico-sociais e culturais.

 

 

POSSIBILIDADES E OBSTÁCULOS PARA O DESENVOLVIMENTO DO ATLETISMO PARA GAROTAS E MULHERES NA ÁREA SULAMERICANA

Os obstáculos para desenvolver o atletismo em nossa região são de origem socio-cultural e econômica, como já foi exposto nos dois tópicos anteriores. A atitude de Pierre de Coubertin, sempre abertamente contrário à participação da mulher nos esportes, que seria "contra as leis da natureza" (SIMRI, 1981), teve provavelmente muitos seguidores em nossa região. A instabilidade econômica verificada em muitos países sulamericanos tem impossibilitado ações educacionais mais concretas, que poderiam a médio prazo diminuir de maneira significativa os preconceitos com relação à mulher dentro da sociedade, e como consequência direta veríamos também a redução na quantidade de mitos envolvendo a sua participação no esporte. De qualquer maneira, as possibilidades de desenvolvimento do atletismo feminino na região existem concretamente.

A probabilidade de se encontrar um talento esportivo dentro de uma determinada população independe do sexo. Quando não são criadas as condições mínimas para que as mulheres participem de nosso esporte da mesma maneira que os homens o fazem, estamos diminuindo consideravelmente nossas oportunidades de êxito em eventos internacionais, êxitos esses que já são muito escassos.

Temos alguns dados que mostram como ainda podemos, e devemos, evoluir no atletismo feminino. Considerando o Brasil, que é o país sulamericano com melhores resultados em âmbito internacional, vemos que a população do sexo feminino é quase 10% maior que a do sexo masculino. O ideal seria que tivessemos uma participação que acompanhasse essa proporção. No entanto, a maioria dos atletas registrados na Confederação Brasileira de Atletismo é do sexo masculino. Esse número proporcionalmente reduzido de participantes do sexo feminino não se observa apenas entre os atletas federados: um programa de iniciação esportiva mantido de 1985 a 1989 em Osasco, uma cidade próximo à São Paulo, por uma Fundação vinculada a um grande banco brasileiro, propunha oferecer a prática esportiva organizada para seus alunos, com a possibilidade de participação em competições de diferentes níveis. As modalidades oferecidas eram, além do atletismo, basquetebol, ginástica olímpica e natação, para ambos os sexos, e dança para o sexo feminino. Um determinado número de vagas era oferecido por cada modalidade, e caso a procura fossa maior que essa oferta, um teste de seleção era realizado. O atletismo, no ano de implantação do projeto, recebeu a procura de 338 alunos de 11 a 15 anos de idade, sendo 190 do sexo masculino e 148 do sexo feminino (Figura 1). Nesse caso em particular, talvez em função da "concorrência" de modalidades vistas como mais femininas, o envolvimento reduzido de mulheres com o atletismo começou desde cedo. FERRIS (1981) já salientava que, mesmo em países desenvolvidos, ainda se espera que a mulher atleta se comporte de acordo com uma imagem feminina estereotipada. Certas modalidades esportivas não condizem com essa imagem, e as mulheres se afastam delas. No caso do atletismo, a questão é: "seria o envolvimento sistemático em uma atividade que demanda grandes esforços físicos e alto grau de competitividade um comportamento social e culturalmente aceitável como feminino?". Talvez esse projeto tenha cometido um erro estratégico ao oferecer dança apenas para as meninas, pois reforçou o senso comum de que mulheres devem procurar atividades graciosas, esteticamente aceitáveis, o que talvez o esporte em geral, e o atletismo em particular, não pudesse oferecer. Um outro exemplo a ser dado é o Projeto Olímpico CEPEUSP-Xerox, que funciona dentro do Campus da Universidade de São Paulo. Esse projeto teve seu início em 1992, e está em pleno andamento. Crianças de diversas escolas da rede pública são convidadas para testes de seleção, e os aprovados passam a contar com assistência médica, nutricional, auxílio transporte e acompanhamento técnico. A participação de meninos e meninas nesse projeto já se mostra equilibrada, indicando que se certos cuidados forem tomados, a participação inicial de garotas no esporte pode ser tão significativa quanto a dos garotos.

 

 

Figura 1. Participação relativa de escolares de 1º grau em testes de seleção em um programa de iniciação ao atletismo na Grande São Paulo (1985).

 

 

RECOMENDAÇÕES DE MEDIDAS DE PROMOÇÃO

A fim de aumentar a quantidade e qualidade de participantes de programas de atletismo para garotas e mulheres, fazemos as seguintes sugestões:

· Aproximação entre as Federações de Área, Nacionais e/ou Regionais e as Universidades, para o desenvolvimento de estudos relacionados à mulher no esporte;

· Publicação de artigos, guias, livretos, etc., pertinentes à participação da mulher no atletismo, estabelecendo estratégias e cuidados especiais para que se alcancem com maior probabilidade esses objetivos;

· Promover conferências, cursos, seminários ou estágios, também destinados a fomentar a participação da mulher no atletismo. Às vésperas ou durante determinadas competições poderiam ser realizadas reuniões para discussão de assuntos e problemas relacionados à mulher no esporte; as exigências para participação nesses eventos não deve ser muito alta, e a participação de treinadoras deve ser fortemente estimulada;

· Melhorar a competência das professoras (es) e técnicas (os) no ensino do atletismo, com especial atenção a aspectos fisiológicos e psicológicos da participação feminina;

· Estarem atentos para não estabelecer exigências inadequadas, que podem afugentar os participantes. Isso nos parece particularmente verdadeiro para as garotas, que não desenvolveram uma auto imagem de pessoas capazes de fazer frente a grandes esforços;

· Envolver o maior número possível de treinadoras e treinadores no programa de formação e certificação de treinadores da IAAF, particularmente no que se refere aos cursos nível I. Poderia haver a sugestão de que aqueles que se recusassem a ingressar no programa seriam impedidos por sua Federação Nacional de atender a determinadas competições.

· Fomentar a criação de Departamentos Femininos, entre outros, a nível Regional, Nacional e Sulamericano, estabelecendo assim uma discussão permanente que resultará em recomendações práticas e específicas para o desenvolvimento do atletismo feminino.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BORMS, J. et al. (eds.). Women in Sport. Med. Sport, 14:1-3, 1981.

2. FERRIS, E. Women in sport: a question of freedom. Med. Sport, 14:4-10, 1981.

3. FORNERIS, L. et al. Desarollo atletico en la Argentina. Boletin CRD Santa Fé - IAAF, 7:23-27, 1993.

4. HOWELL, R. Women and sport: an historical review. Med. Sport, 14:11-15, 1981.

5. SIMRI, U. Development of women's sport in the 20th century. Med. Sport, 14:31-43, 1981.

6. VILADRICH, A. La mujer sudamericana y el deporte. Boletin CRD Santa Fé - IAAF, 2:25-30, 1992.

7. VILLALÓN, J.M. Rol social de la medicina del deporte. Mujer y deporte. Boletin CRD Santa Fé - IAAF, 3:20-28, 1992.