
ANÁLISE DAS RELAÇÕES ENTRE VELOCIDADE DE ABORDAGEM E DESEMPENHO EM SALTOS HORIZONTAIS NO TROFÉU BRASIL DE ATLETISMO 2003
Nelio Alfano Moura 1,2 e Tania Fernandes de Paula Moura 2
1 Treinador Nacional de Saltos – CBAt
2
Clube BM&F Atletismo
Introdução
O desempenho em provas de saltos é determinado – sob o ponto de vista da biomecânica – pelos mesmos fatores que regem os movimentos dos projéteis: altura relativa de liberação, ângulo de liberação, velocidade de liberação e resistência do ar. A velocidade de liberação (ou de saída) parece ser o fator mais importante, principalmente seu componente horizontal. Há uma relação bastante alta entre velocidade média de corrida e velocidade horizontal no momento do apoio na tábua, e também entre essa velocidade de chegada e a velocidade de saída da tábua, conforme se vê nas figuras 1 e 2 (FUKUCHI et al, 2003).

Figura 1: Relação entre velocidade média de abordagem e velocidade no instante do contato com ao tábua (FUKUCHI et al, 2003)

Figura 2: Relação entre velocidade no instante do contato com a tábua e no momento da saída (FUKUCHI et al, 2003)
A mensuração da velocidade média de abordagem por meio de células fotoelétricas é mais prática e de menor custo em relação às medidas feitas por cinemetria, podendo ser facilmente utilizada no dia a dia do treinamento e mesmo em competições. O objetivo desse estudo é determinar a relação entre velocidade média de abordagem e desempenho nas provas de saltos horizontais do Troféu Brasil de Atletismo – 2003.
Material e Métodos
Todos os atletas participantes do Troféu Brasil de Atletismo - 2003, realizado no Estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera (São Paulo), tiveram seus saltos avaliados. O resultado oficial de competição e a velocidade média de abordagem foram as variáveis estudadas. Com o uso de células fotoelétricas colocadas a 6 metros e a 1 metro da tábua de impulsão, foi possível mensurar o tempo gasto pelo atleta para percorrer uma distância de 5 metros na fase final da abordagem, e com isso a velocidade média de abordagem foi calculada. O coeficiente de correlação de Pearson foi usado para determinar a grandeza da relação entre as duas variáveis, para esse grupo de atletas de elite nacional.
Resultados
As três tabelas abaixo mostram dados para as melhores tentativas de cada atleta participante das provas de salto em distância (masculino e feminino) e salto triplo (masculino) do Troféu Brasil 2003, onde t = tempo no intervalo de 5 metros, e v = velocidade média nesse intervalo.
|
NOME |
NASC. |
Clube |
Resultado (m) |
t (s) |
v (m.s-1) |
|
John Thornell |
85 |
AUS |
7,99 |
0,48 |
10,42 |
|
Thiago Jacinto Carahyba Dias |
84 |
BM&F |
7,90 |
0,49 |
10,20 |
|
Jadel Gregório |
80 |
BM&F |
7,89 |
0,49 |
10,20 |
|
Sergio Muniz dos santos |
76 |
AA GUARU |
7,86 |
0,48 |
10,42 |
|
Nelson Carlos Ferreira Junior |
73 |
BM&F |
7,69 |
0,48 |
10,42 |
|
Antonio Lucindo da Costa |
73 |
Vasco |
7,62 |
0,49 |
10,20 |
|
Luciano Daniel silva |
79 |
Joinville |
7,53 |
0,51 |
9,80 |
|
Luis Antonio Agripino |
76 |
UNIMEP |
7,50 |
0,52 |
9,62 |
|
Leandro Souza de Jesus |
81 |
Suzano |
7,46 |
0,48 |
10,42 |
|
Marcos Diomkinas Trivelatto |
83 |
ASA |
7,44 |
0,50 |
10,00 |
|
Leonardo Elisiário dos Santos |
84 |
ULBRA |
7,40 |
0,51 |
9,80 |
|
Marcelo Ap. da Costa |
81 |
ULBRA |
7,40 |
0,51 |
9,80 |
|
Rodrigo Rodrigues de Araújo |
79 |
Ituana |
7,38 |
0,50 |
10,00 |
|
Marcelo Augusto de Miranda |
74 |
Vasco |
7,26 |
0,51 |
9,80 |
|
Jefferson Dias Sabino |
82 |
AA GUARU |
7,04 |
0,52 |
9,62 |
|
Erivaldo da Cruz Vieira |
80 |
BM&F |
7,02 |
0,50 |
10,00 |
|
Anderson Antonio Silva |
83 |
Arpoador |
7,01 |
0,55 |
9,09 |
|
Elton Ribeiro de Queiroz |
78 |
Unoeste |
6,96 |
0,52 |
9,62 |
|
Rubens dos Santos Junior |
84 |
São Caetano |
6,94 |
0,49 |
10,20 |
|
Claudio Batista Novaes |
72 |
Arpoador |
6,87 |
0,51 |
9,80 |
|
Adão Antonio de Souza |
76 |
Americana |
6,83 |
0,54 |
9,26 |
|
Danilo Mendes Xavier |
86 |
ASA |
6,83 |
0,52 |
9,62 |
|
Giovanni Valentim |
85 |
Sertãozinho |
6,52 |
0,53 |
9,43 |
Tabela I. Resultados para o salto em distância masculino.
|
NOME |
NASC. |
Clube |
Resultado (m) |
t (s) |
v (m.s-1) |
|
Maurren Higa Maggi |
76 |
BM&F |
6,75 |
0,52 |
9,62 |
|
Keila da Silva Costa |
83 |
PE |
6,52 |
0,55 |
9,09 |
|
Luciana Alves dos Santos |
70 |
ASA SBC |
6,34 |
0,56 |
8,93 |
|
Vanessa Vieira Seles |
81 |
BM&F |
6,10 |
0,55 |
9,09 |
|
Maria Ap. Barbosa de Souza |
71 |
BM&F |
6,03 |
0,63 |
7,94 |
|
Fernanda Gonçalves |
83 |
AAG |
6,00 |
0,56 |
8,93 |
|
Laurice Cristina Félix |
81 |
BM&F |
5,98 |
0,57 |
8,77 |
|
Viviane Silveira Ramos |
83 |
Arpoador |
5,79 |
0,63 |
7,94 |
|
Kauiza Moreira Venâncio |
87 |
PR |
5,74 |
0,59 |
8,47 |
|
Renata Vidal Peixoto |
82 |
ULBRA |
5,66 |
0,60 |
8,33 |
|
Luzia Maria Teodoro |
78 |
Ponte |
5,66 |
0,60 |
8,33 |
|
Lucimara Silvestre da Silva |
85 |
BM&F |
5,53 |
0,60 |
8,33 |
|
Tania Ferreira da Silva |
86 |
PE |
5,50 |
0,63 |
7,94 |
|
Tatiane São João Lima |
84 |
ASA SBC |
5,48 |
0,60 |
8,33 |
|
Elen Lacerda de Oliveira |
87 |
Bauru |
5,45 |
0,59 |
8,47 |
|
Mônica de Cassia Freitas |
83 |
Amazonas |
5,45 |
0,61 |
8,20 |
|
Danielle Biscaro Pedrolli |
82 |
Marília |
5,37 |
0,64 |
7,81 |
|
Juliana Bonfim dos Passos |
84 |
ASA SBC |
5,34 |
0,59 |
8,47 |
|
Ana Lúcia A. da Costa |
79 |
Joinville |
4,99 |
0,60 |
8,33 |
Tabela II. Resultados para o salto em distância feminino.
|
NOME |
NASC. |
ESTADO |
Resultado (m) |
t (s) |
v (m.s-1) |
|
Jadel Gregório |
80 |
BM&F |
17,05 |
0,49 |
10,20 |
|
Anísio Souza Silva |
69 |
AAG |
17,00 |
0,49 |
10,20 |
|
Leonardo Elisiário dos Santos |
84 |
ULBRA |
16,58 |
0,52 |
9,62 |
|
Marcelo Aparecido da Costa |
81 |
ULBRA |
16,56 |
0,53 |
9,43 |
|
Sergio Muniz dos Santos |
76 |
AAG |
16,53 |
0,48 |
10,42 |
|
Antonio Lucindo da Costa |
73 |
Vasco |
16,02 |
0,51 |
9,80 |
|
Jefferson Dias Sabino |
82 |
AAG |
16,01 |
0,52 |
9,62 |
|
Fernando Godoy dos Santos |
83 |
SCS |
15,66 |
0,53 |
9,43 |
|
Edson Corassini dos Santos |
74 |
BM&F |
15,61 |
0,51 |
9,80 |
|
Marcos Antonio da Costa |
77 |
ULBRA |
15,59 |
0,52 |
9,62 |
|
Henágio Fernando Galvão |
84 |
BM&F |
15,48 |
0,58 |
8,62 |
|
Alessandro Bonfim |
81 |
ASEMPAR |
15,46 |
0,52 |
9,62 |
|
Messias José Baptista |
68 |
Osasco |
15,41 |
0,52 |
9,62 |
|
Elton Ribeiro de Queiroz |
78 |
Unoeste |
15,35 |
0,52 |
9,62 |
|
Adão Antonio de Souza |
76 |
Americana |
14,74 |
0,52 |
9,62 |
|
Herold Eugênio |
83 |
Unimep |
14,29 |
0,54 |
9,26 |
Tabela III. Resultados para o salto triplo masculino.
Os valores de correlação entre velocidade média de abordagem e desempenho nos saltos são mostrados a seguir:
Salto em Distância Masculino
|
r = |
0,72 |
Salto em Distância Feminino
|
r = |
0,74 |
Salto Triplo Masculino
|
r = |
0,58 |
Relações individuais
Um banco de dados está sendo formado com os resultados de diferentes competições, a partir de 2003. Dessa maneira, podemos colecionar um número significativo de dados de diferentes atletas (no mínimo 6 competições da cada), para determinar individualmente a relação entre velocidade média de abordagem e desempenho nos saltos horizontais. Análise preliminar dos dados disponíveis (Tabelas IV e V) indica que essa relação individual tende a ser menor que a relação observada para o grupo. Em outras palavras, embora seja razoável dizer que saltadores mais velozes são capazes de saltar mais longe, não se pode afirmar com a mesma certeza que quando um mesmo saltador corre mais rápido, ele será capaz de obter um resultado melhor.
|
Salto em Distância |
|
|
Maurren Maggi: |
r = 0,64 |
|
Luciana Santos: |
r = - 0,26 |
|
Thiago Carahyba: |
r = - 0,05 |
|
Sergio Muniz: |
r = 0,98 |
Tabela IV - Relação individual
|
Salto Triplo |
|
|
Jadel Gregório: |
r = - 0,35 |
|
Leonardo Elisiário: |
r = 0,21 |
|
Marcelo Costa: |
r = 0,49 |
|
Sergio Muniz: |
r = 0,82 |
Tabela V - Relação individual
Discussão
Valores altos de correlação entre velocidade de abordaggem e desempenho nos saltos horizontais já eram esperados, principalmente no salto em distância. Os valores moderados de correlação observados no salto triplo masculino indicam que há um número maior de fatores determinantes do rendimento nessa prova, e essa relação mais fraca já havia sido notada por HUTT (1989).
É comum pedirmos para nossos atletas abordarem a tábua com maior velocidade. Embora essa seja uma prática justificável em treinamento, é questionável se os resultados dessa orientação serão sempre positivos em competição. A análise dos dados preliminares disponíveis mostra que a relação individual entre velocidade de abordagem e desempenho nos saltos é bem mais baixa que a relação para o grupo, e em muitos casos é inclusive negativa (salta-se menos quando se corre mais rápido). A explicação para essa aparente contradição não é difícil. Há muito já se sabe que a velocidade de entrada deve ser ótima (não máxima). O atleta – segundo HAY (1993) – deve ser capaz de cumprir três objetivos na corrida de abordagem (figura 3), e muitas vezes a busca da velocidade mais alta possível interfere negativamente na consecução dos dois outros objetivos. Para SMITH & LEES (2003), equilíbrio entre os fatores que determinam o rendimento nos saltos (velocidade, força e técnica) é fundamental. Quando se aborda a tábua com maior velocidade, as forças de reação do solo são também aumentadas, exigindo níveis mais altos de força especial. Portanto, o desenvolvimento da força especial é um pré-requisito para a utilização eficiente de uma velocidade de abordagem mais alta. Além disso, quando se modificam as condições de gerar velocidade e força, modificam-se também as exigências referentes ao timing (técnica), que portanto deve ser desenvolvida em paralelo com a condição física especial.

Figura 3
. Exigências de velocidade, posicionamento e precisão durante as últimas passadas da corrida de abordagem. Modificado de HAY (1993).
Referências Bibliográficas